sábado, 21 de agosto de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXII

UM POEMA RECENTE DE FERNANDO MONTEIRO



“E para que ser poeta
em tempos de
penúria?”



Insepulta jaz a pergunta acima


e bem acima do motivo
supostamente íntimo

visto no verso de um dos últimos poemas de Roberto Piva.


A inquirição, franca, fende a fina porcelana de cera dos ouvidos.



Sabemos da penúria,

porém não queremos saber dela.


Plantamos a flor carnívora,

mas desviamos a vista

quando o jardim do pecado

castiga com isso:

indiferença, acídia, tédio mortal

no peito de avestruzes

(os do estômago forte

para literatura feita

com lixo).



Lixo, lixo, lixo:



afirmou três vezes, o Roberto

Pedro da não-negação pívia,
no vôo de Gavião livre
acima da poesia brasileira
do avestruzismo afundando
no tapete vermelho
dos prêmios paulistas
que nunca foram para as mãos
paulistanas desse ímpio gentil,
suave no convívio
porém feroz na recusa
de comércio literário
& negócios do filth.

Tardia lição de um pária,
a pergunta posta no lixo
basta como indagação direta,
resta como interrogação pura
de dentro para fora da sua vida:
para que ser poeta em época
de bosta blindando tímpanos?



Ainda incomoda muita
 gente,

porque perguntar é claro que ofende
(e elefantes chateiam muito menos,
naquele refrão de cantilena),
a penúria a pesar mais, muito mais, do que setenta e dois mil paquidermes do circo embutido no círculo de dúvidas levantadas pela palavra indicando (múltipla escolha, agora):


A) “Um idoso precisando de grana,
com choro e sem vê-la?”


B) “O solitário sem recursos,
num prédio degradado da Sampa
que faz a delícia dos cineastas
de olho de vidro?”


C) “Aluguéis em atraso, dívidas,
a necessidade de tratar os dentes
de ilustre entre os inadimplentes?”...


D) “Etc etc.”


[OBSERVAÇÃO: Dessa forma, é doce morrer no mar
da pergunta debitada ao desalento, remetida ao gosto pelo autoflagelo,
o fingidor a fingir que a penúria seria só a do poeta,
o mais marginal dentre os vates menos ilustres da nossa lira,
pois Piva não teve sorte na vida, nenhum amigo na Folha
e foi curto minuto no noticiário noturno apenas quando morreu
en passant para a TV voltada para a montanha do Lixo.]



“E para que ser poeta em tempos de penúria?”
é um dedo que nos acusa, trêmulo,
e não devido ao Parkinson do poeta.


O fato é que ultrapassa do tecido biográfico,
dos dados de cartório, geografia e outros
[PIVA, ROBERTO – São Paulo, 1937/2010]
e progride em acusação, do patamar da pobreza
para um geral “mal estar na cultura”,
uma doença suspensa sobre as cabeças
acima das quais paira a cinza
da pergunta do bardo por anos e anos
tentando, na ignorância da penúria,
“ressuscitar a arte morta da poesia;
errado desde o início,
não rigorosamente,
mas vendo que havia nascido
num país meio selvagem,
fora de época”.


Isso é fragmento de Pound,
ou um centavo da sua franqueza
dedicada ao mesmo objeto
do falso desdém
de Marianne Moore:


Eu, também, não gosto dela.
Lendo-a, no entanto, com um
perfeito desdém por ela,
descobre-se na poesia
um lugar, afinal, para as coisas
autênticas.



“Delicada situação
financeira” etc.,

referiram alguns necrológios em lamento
impresso de delicadeza uníssona,
eu reconheço, para com a memória de Piva.


Com certeza, delicada era a espessura
de nuvem
do seu sistema (?) de vida
refletida no espelho d’água
de uma foto fazendo tremer,
na imagem do poeta sessentão,
a marca dos anos finais
de sol negro no seu endereço
de solidão no centro populoso
da maior cidade da América Latina:


Aqui morou um menino de fazenda
transformado em poeta urbano
de capa do terceiro caderno
que o mendigo depois usa
com finalidades higiênicas.


Nas páginas de jornais,
quando acontecia de se lembrarem dele,
Roberto sabia encenar para a estagiária
enviada da redação (a propósito de qualquer besteira),
o lirismo transverso de uma espécie de anjo
decadente a fazer aquelas perguntas tortas
pelo mau uso do cachimbo fora das bocas
da moda em Liberdade, Vila Olímpia
e Moema.


Não era, entretanto, um amador em espetáculo
performático (y otras frescuras),
e o caso da pergunta que ele deixou perfilada
num verso até simples,
adverte o tempo de aposentar poetas,
abre o verbo,
diz claramente:
em épocas de penúria deprimindo o espírito,
a poesia se torna absurda,
sem sentido, dispensável, inútil,
deslocada e carente de público
inclusive para ouvir o tilintar
do dinheiro, realmente,
num poema de Ritsos:


Tarde sombria como um bolso vazio.
No fundo do bolso um buraco doce, penugento.



Por lá passas um dedo em segredo,
tocas a própria coxa como se tocasses
outro corpo, maior, estranho, profundo
– o corpo da noite ou da tua morte.



Por esse buraco caem as moedas todas,
mesmo as de ouro, cunhadas com a efígie
esplêndida e jovem do Príncipe dos Lírios.


A pergunta de Piva – essa fissura –
revela meramente o que ela revela,
pois o cão do derradeiro livro
não produziria um ganido,
ao latir para tímpanos blindados
pela incultura.


É claro que faltavam conforto, vinhos
e rosas,
sendo parcas as rendas do herdeiro
de antigas terras sumidas
com roseirais na bruma.
E poucos os meios (mais do que os fins)
para os longos fins de semana,
o garoto da banca de revistas,
a importada edição dos inéditos
de Pier Paolo Pasolini.


Tudo tão verdadeiro quanto distante
da essência de outras penúrias
entre esquinas de garoas
e galerias de arte em vernissages
cujo rumor de cálices noturnos
chega aos guardadores de carros
como a música do paraíso
de inalcançáveis perdizes.


Para que ser poeta em tempos assim?


Quando Piva faleceu (e faz pouco tempo),
todos evitaram cuidadosamente
a simplicidade desconcertante
da interrogação relativa
aos Tempos de Penúria
Intelectual,
Moral,
Social,
Sexual,
Musical,
Teatral,
Poetal,
Caricatural...
virando uma exposição no MASP,
um patrocínio da Lei Rouanet,
uma loucura domesticada,
uma homenagem ao terraço Itália,
uma retrospectiva de metrô dedicada ao Bardi
e esquecida dos Flávios da família patrícia
da Casa do Caralho pichado
no monumento àquela revolução
Constitucionalista (com “C” grande)
que é um caso de São Paulo,
como Jânio Quadros,
os Mutantes,
os irmãos Campos
e Hebe Camargo.


Tudo isso está saindo assim
para dizer que Piva começou
quando das edições de Massao
(por favor, não deixem morrer o Editor, sem que ele ouça o “Ohno!” sendo chamado entre os nomes fundamentais da fé clara na poesia, numa época de treva),
os livros despontando da Oscar Freire
entre aguardente e rara consolação
de um Piva no meio dos pífios
entre poetas lançados assim mesmo
(o samurai não usava a katana,
mas longos cabelos de Mifune
e o olho de receber uma Hilda Hilst
com todas as honras).


Hilda! Era instigante encontrar pessoas estranhas
nos bares, moças de botinas, atores que não dormiam,
atrizes que fumavam demais,
gente saudável do modo mais incorretamente político
possível entre invernos e repressões,
notícias vagas de espiões
e manifestos da classe unida
para terminar em separação,
“Diretas Já!”
e outros gritos que vulgarizam poemas
ditos longos (e pré-ditos), elegantes,
essas porras de novo,
e Piva e a prova de que nada muda
– quando no fundo se deseja
a mudança de Lampedusa,
de Salina para Salina.


Fui mal, nessa tentativa de síntese.
Sou ruim, quando se trata de ver de longe
e de perto ao mesmo tempo.


Finjam que não leram,
e recomecemos dos escândalos paulistanos
que sempre terminam bem absorvidos
pela capital grande demais para se assustar
com uma arenga de artista.


Roberto Piva, apesar disso,
bem que tentou,
enquanto seus amigos agora respiram,
afinal saudosos, aliviadamente,
na neblina.



Ele aceitou pisar ao
contrário

na sarjeta cuspida pelos mendigos,
entre seringas e camisinhas usadas
por trás de fumaças das pamonhas
cozidas para os nordestinos
da São João dos antigos cinemas
pornôs reforçados por sexo ao vivo.


Era o puro desespero que Piva via
no palco e na platéia de mãos sujas
de esperma e gosmenta casca de milho
no chão das salas vinte e quatro horas
sem limpeza,
até vir uma mulher com o uniforme de serviço
a fim de suportar a imundície removida com pá,
porém sem a luva de uso “uma por vez”
de recomendação da Saúde Púbica.


Roberto Piva estava pobre e triste,
porém a pergunta que ele deixou
feita para a Indiferença,
dirigida ao Tédio,
destinada à Morte (e fim),
não dizia respeito somente à conta bancária
de movimento certamente ridículo
para o critério dos cheques especiais regulados
pela central de algum banco centralíssimo
na Paulista ou no antigo Viaduto do Chá
sem meias xícaras de medidas
contra o comércio de artigos de plástico
dos miseráveis que comoviam o poeta,
uma vez que as lágrimas de Roberto
raramente eram para si mesmo,
a cara amassada no espelho
implacável da queda dos cabelos
também nos travesseiros
ligeiramente azedos
da longa noite sozinho,
sem beleza.


Tenho uma história para contar, ainda.


De certo modo, é uma história sobre Piva e eu,
que nunca nos conhecemos em São Paulo
ou no Recife ou em outro lugar qualquer
deste país de bienais e flips, flops e flups.


Acontece que alguém de um “Círculo de Leitores OF”
(assim mesmo) resolveu me convidar para ler
fragmentos de Vi uma foto de Anna Akhmátova
e eu perguntei se pagavam,
e a moça do outro lado da linha
[num mau poema, isso quer dizer telefone]
respondeu que “ofereciam passagem e hospedagem”,
mas cachê não.


Pagamentos eram para a sala,
para “o rapaz do som”, “a companhia de eletricidade”,
a “gráfica dos cartazes” e tudo o mais,
menos para o poeta convidado para recitar poemas
ou que raio fosse (digo eu).


Irritado, eu emendei: “Dizer poesia”.
Ela disse: “Pois é. Não há dinheiro para isso.”
Eu disse: “Eu já entendi. Mas você devia ter dito DIZER POESIA,
em vez de recitar poemas.”
Ela disse: “Hein?”
Eu desisti.


Mas voltei a perguntar: “E o que é OF? É inglês?”
Ela disse: “Não! É Orides Fontela. Circulo de Leituras Orides Fontela”...


Então, eu aceitei ir “recitar poemas”,
isto é, aceitei viajar sem ganhar um centavo,
com um propósito “nobre”, “cultural” (essas merdas)
embora a própria Orides houvesse escrito belamente:


Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.


Como eu poderia cobrar alguns trocados
de um Círculo de Leitores tocando
a memória tristíssima da poeta mais pobre do mundo?


Orides Fontela foi despejada,
ficou sem lugar para morar
e teve que se alojar de qualquer jeito
na Casa do Estudante,
na mesma Avenida São João que você conhecia tão bem,
meu poeta (alguma vez chegou a ver Orides
recolhendo algum bichano transido de frio
entre uma delicatessen e um hotel para lúmpens?)...


Esse convite foi na semana em que você morreu, Piva,
eu estava comovido e a lembrança da pobre Orides
veio destroçar ainda mais a minha resolução de cobrar
pra viajar com rota e para um Círculo liso,
com a finalidade de ler partes do Anna Akhmátova
ou qualquer outra excrescência de tempos de penúria
(para que ler poesia?), de maneira que eu propus:
“Eu aceito, mas vou para falar sobre o Roberto Piva”.


Ela: “Quem?”
Eu: “Piva, o poeta que acaba de morrer.”
Ela: “Era seu amigo?”
Eu: “Não”.
Ela: “E por que o senhor quer falar sobre ele?”
Eu: “Porque um dos seus últimos versos não me sai da cabeça”.
Ela: “É tão bonito assim?”
Eu: “Versos não precisam ser bonitos. Versos precisam ser verdadeiros.”
Ela: “Diga ele”.
Eu: “Diga-o”.
Ela: “Eu não sei qual verso é esse que não sai da cabeça do senhor.”
Eu: “Eu sei.”
Ela: “Então, diga”.
Eu: “E para que ser poeta em tempos de penúria?”


É claro que eu terminei indo lá,
no Centro de Leituras Orides Fontela,
e falei sobre Orides e sobre Roberto,
ambos pobres e doentes e grandes poetas
que São Paulo ignorou de diferentes maneiras,
autorizando o Brasil a ignorá-los também.


Porque, realmente, não há nenhuma razão
para se ser poeta em tempos de penúria
feita da não-percepção do muito que depende
de um “carrinho de bebê vermelho ao sol”
ou qualquer outra banalidade aparente
voltando num sonho leve como avencas
na sombra do perdido paraíso da infância
de vagalumes presos.


Eles estavam já apagados, Piva,
na palma envelhecida de Parkinson e saliva,
cansaço e mais “os anos sem emoção” (...)


São Paulo desaparecera por detrás da juventude
da geração de Robertos confiados
(de modos diversos) na aventura da vida
a trair pelo menos os Pivas (e as Orides).


Não há mais poemas nos muros de eleições sem inspiração.
Não há mais inspiração para seja o que for que ainda não tenha sido traído
ao menos por distração (concedido seja o beneplácito da dúvida sobre a determinação de algumas traições).



“E para que ser poeta
em tempos de
penúria?”



Você perguntou tão francamente
que ninguém poderia prestar muita atenção,
meu poeta pronto para morrer desse lamento,
além da doença e da orfandade de si,
Orfeu perguntando “para quê”?...


E todos fazendo como se a pergunta
não fosse com ninguém,
além do próprio poeta Piva.


[NOTA: O poema já estava terminado – exatamente no dia 3 de agosto, um mês após a morte de Roberto Piva -- quando me deparei com a seguinte notícia, conservada na internet: 13 de junho de 2010... O editor Massao Ohno, de 74 anos, morreu anteontem à noite na Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, onde estava internado havia uma semana etc. Apesar disso, decidi manter o verso referente ao Massao – verso que ainda o toma por vivo – íntegro no seu engano, uma vez que a notícia sobre a morte do Editor, despercebida, é mais um exemplo dos “tempos de penúria” de que fala o verso do Piva. FERNANDO MONTEIRO]

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXI

O ENCONTRO DE GRACILIANO COM DRUMMOND

Graciliano Ramos havia saído da prisão no dia treze de janeiro de 1937. Fora preso sem motivação plausível, talvez pela suspeita de pertencer ao partido comunista ou de ser simpatizante do movimento subterrâneo da esquerda anterior ao Estado Novo. Liberto, após quase um ano de detenção, sem emprego ou renda, Graciliano passou a morar na casa de José Lins do Rego. Na busca de opções para ganhar algum dinheiro, anima-se a participar de um concurso de literatura infanto-juvenil, estimulado pelo pintor Santa Rosa.
Certa tarde, dirige-se ao Ministério da Educação e Saúde, cujo titular era o mineiro Gustavo Capanema, para saber informações sobre o prêmio. O evento acontece e é relatado em etapas, desde a sua chegada ao ministério, interação com o ascensorista, negação e indiferença ao cumprimento do Ministro e, ao fim, o encontro com Drummond:

“Duas horas. O Ministério fica no edifício onde está o cinema Rex. Entrei. Estou tranquilo no elevador, esperando um momento oportuno para perguntar ao ascensorista em que andar devo descer, quando o mesmo se empertiga como um recruta ao receber brado de sentido dado por um sargento valentão. Talvez exagere, bateu os calcanhares. Aprumado, disse obsequioso:
- Boa tarde, Senhor Doutor Ministro.
Não olhei para quem entrava; não conseguia tirar os olhos do ascensorista. Despertava-me maior curiosidade naquele instante. Era o típico mulato carioca, cheio de mesuras e rapapés, magro e desengonçado, vestido de azul-marinho, terno já surrado, mas impecável na limpeza. Usava um estranho bonezinho na cabeça, de tamanho menor que a circunferência do crânio. Ficava meio no cocoruto, como se fosse chapéu colocado na cabeça de um burro. Olhando melhor, vi que parecia um desses bonés de motorneiro de bonde. Com meus botões pensei que o mulato devia ser mesmo militar. O hábito do quépi faz o monge. Queria saber de onde tinha desentranhado o “Senhor Doutor Ministro” e o boné.
Nisto dou de cara com o Ministro Capanema. Mineiro compenetrado, tinha o nariz avantajado (quase de negro) e o beiço caído. Bochechas grandes e flácidas. Reconheceu-me, creio, e esboçou gesto de cordialidade na minha direção. Não posso adivinhar a cara que fiz para a S. Excia., sei que cortei o seu gesto pelo meio. Subimos. Deixei que descesse primeiro e fui até o último andar. A sós com o mulato do boné, perguntei-lhe onde poderia obter informações sobre um concurso infantil do Ministério. Indicou-me o andar, já sentado de volta no seu tamborete. Aliás, nele sentou-se tão logo fechou a aporta nas costas do Senhor Doutor Ministro.
O andar era o mesmo em que tinha descido o Ministro. Pelo visto, deste eu não me escapo. Pensei melhor: ridículo um Ministro de Estado a dar informações.”

Como se pode observar, o escritor Graciliano, na perquirição de tipos sociais, prefere observar o traje e os hábitos do ascensorista, deixando de lado a figura imponente do Ministro. O flagrante imperdível do “mulato carioca”, sem que perceba a indelicadeza que está a cometer, paralisam-no momentaneamente. Ultrapassa a condição civilizada, embora “selvagem”, do homem que era, para se fixar na personagem humilde e pitoresca do mulato, facilitada pela visada do escritor. Cede à compulsão literária em detrimento da vida prática. E, no âmbito profundo da situação, contrapõe o mulato ao Ministro, o negro ao branco, o servidor público modesto ao funcionário do alto escalão getulista. Retorna à própria condição implícita de ex-detento, à realidade viva, chã e deprimente, embora sem jamais esquecer a suspensa e simultânea de escritor. Neste tempo mínimo, em que ocorrem coisas somente vistas a fundo por ele, prepara-se o encontro com Drummond:

“Na saída do elevador deparo-me com um poeta mineiro, que veio para o Rio junto com Capanema para ser o seu auxiliar de gabinete, de quem elogiam o caráter e a poesia. Seu nome escapa-me. Magro e taciturno, tímido e falante ao mesmo tempo, trocamos muitas palavras dentro de uma sucessão de mal-entendidos mútuos. Ele fazia questão de não mencionar a situação passada, escondendo-se por detrás do leitor atento e apreciador dos meus livros. Eu, querendo apenas pedir-lhe informações sobre o edital, retribuía as honras e os elogios literários.
Eram dois escritores que se encontravam à entrada de uma Academia de Letras. Competia a mim acabar com a situação falsa, declarando o motivo da minha presença naquele lugar. Se não o fizesse, na certa pensaria que tinha vindo visitar o Ministro. Nunca se sabe neste país. Escrevendo agora e conhecendo a matreirice dos mineiros, não posso deixar de pensar que Capanema tinha de propósito colocado o auxiliar na porta do elevador, á minha espera. Conhecendo ainda como as coisas da literatura se passam nesta província chamada Rio de Janeiro, tenho a certeza de que alguém – talvez o Zé Lins, ou mesmo o Santa – já tivesse advertido o Ministro da minha intenção em concorrer ao prêmio infantil. De qualquer forma, expressei o motivo de eu estar ali.
De imediato, levou-me a uma sala onde uma senhora velha e gentil deu-me a cópia do edital. Agradeci a ambos e fui rever o amigo de boné de motorneiro. Deixou-me de volta, na entrada do edifício.”

Essa suposta visão de Graciliano sobre Drummond e o Ministro é um tanto crua, seca, ressentida e enviesada, originária de quem havia feito uma viagem no porão de um navio de Alagoas ao Rio de Janeiro, passando pelo Recife, sem falar nos maus momentos atrás das grades da prisão da Ilha Grande, como conta com riqueza de detalhes ficcionais e reais em Memórias do Cárcere. Seu modelo de poeta configurava-se no pernambucano Manuel Bandeira, tanto pela qualidade e pelo tipo de poesia que este escrevia e que o tocava mais de perto, quanto pelo comportamento áspero e fechado de ambos. É difícil de acreditar que Graciliano, no íntimo, fosse indiferente à poesia drummondiana, mas o que os afastava naquela ocasião mostrava-se como a instabilidade de vida prática e temporariamente precária do ex-detento frente à adaptabilidade, presteza e desenvoltura do tímido assessor do Ministro.
Contudo, isso não foi escrito nem contado pelo escritor alagoano. Faz parte de um trecho do livro Em liberdade (1981), do escritor e crítico literário mineiro Silviano Santiago, que imaginou um diário de Graciliano da fase pós-prisão, no espaço temporal exato de 2 meses e 13 dias. Santiago encarnou a pele e certas nuances da escrita do autor de Angústia e construiu uma obra única e antecipatória dos efeitos paródicos do pós-modernismo e do deslocamento de personalidade e transferência da escrita de um escritor em relação ao outro. Nada disto se faz sem empatia, admiração ou identificação com a obra do Outro. Contudo, não há confusão estilística ou imitação pura e simples – a maneira estético-literária de Salviano não se perde na de Graciliano. O crítico mineiro preserva sua forma de escrever ainda quando absorve instantâneos da secura, da contundência e da precisão inconfundível no trato com a palavra do ficcionista alagoano.
Com A Terra dos meninos pelados, Graciliano ganha o prêmio do Ministério da Educação e, no mesmo 1937, inicia sua colaboração de cronista para um jornal de São Paulo, falando sobre assuntos cotidianos, que assolavam o homem comum, sem deixar de noticiar os acontecimentos literários, como lançamentos de novos autores. Posteriormente, ao filiar-se ao Partido Comunista, trava relações mais amistosas com Drummond nos eventos da União Brasileira de Escritores. É possível que tenha apreciado A Rosa do Povo (1945), como um livro que retratava intensamente um período focado na finalização da Segunda Guerra Mundial, no pânico que se espalhava pelo mundo através dos pactos e negociações bélicas. O poeta apontava caminhos e atitudes militantes, reforçava com sua poesia a luta da esquerda no Brasil, através da palavra solidária, indignada e empenhada daqueles anos.

domingo, 8 de agosto de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXX

MOBILIZAÇÃO RELÂMPAGO ESTÁ SENDO
PLANEJADA PARA A BIENAL DE SP

Uma mobilização relâmpago está sendo planejada para ocorrer durante a 21ª Bienal de São Paulo e começa a tomar cada vez mais corpo via Twitter e Facebook

Iniciada no dia 02/08, através das redes sociais Twitter e Facebook, uma mobilização relâmpago (denominação conhecida mundialmente por Flash Mob) começa a adquirir a cada dia mais adeptos, além de apoio de veículos de mídia cultural. Essa mobilização objetiva mostrar aos visitantes da 21ª Bienal de São Paulo, às 15 horas do dia 14/08, como é que as pessoas leem? Respondendo a essa pergunta, por meio de uma ação estática e pacífica, os organizadores - os escritores Claudio Parreira, Homero Gomes e Mauro Siqueira - pretendem chamar "a atenção para a importância da leitura e não apenas da compra de livros" em um dos principais eventos do mercado editorial brasileiro.

Esse flash mob estático que será realizado a partir do corredor H, do pavilhão do Anhembi, terá um formato simples e, diferente de muitos que já foram realizados pelo mundo. Não demanda grande organização, pois não possui coreografia. Seus organizadores afirmam que os participantes não precisam se preocupar, ninguém vai precisar dançar, nem inventar dança, apenas escolher uma posição interessante para ficar imóvel por alguns minutos. Tudo começará com um sinal único de apito, depois as pessoas que participarem dessa manifestação pública, deverão pegar um livro e ficar imóveis em posição de leitura - seja sentados no chão, de pé, ajoelhados ou até deitados, “vai da criatividade e da vontade de aparecer de cada um”, orienta Homero Gomes, escritor curitibano e idealizador do evento. Após um sinal duplo de apito a mobilização deverá encerrar e os participantes devem dispersar como se nada houvesse acontecido.

Os organizadores sabem que ainda há muito para ser feito para que essa intervenção pública chamar a atenção do grande público que é esperado na 21ª Bienal de São Paulo, mas como todo flash mob, essa mobilização é essencialmente uma criação coletiva, descentralizada, que se espalha viralmente em prol de um único objetivo, nesse caso: a leitura. Por isso, os organizadores acreditam que "a mobilização terá repercussão positiva, abrindo um espaço maior ao debate de ideias em torna do leitura no país", prevê Homero Gomes.

Querendo saber mais, digite #flashmobule ou #bienalSP no “search” do Twitter ou procure por informações junto aos organizadores. Se, por acaso, você não puder estar na Bienal nesse dia, ajude na divulgação dessa ação para quem você conhece. A prática da leitura no país agradece.

Características da mobilização:

Local – pavilhão do Anhembi, com núcleo no corredor H.

Horário de início – 15 horas.

Sinal para ação – um toque de apito dado pelos 3 organizadores: Cláudio Parreira, Homero Gomes e Mauro Siqueira.

Duração – pelo menos 2 minutos, até o toque duplo dos apitos, que indicará o fim da ação.

Ação – após sinal, ficar imóvel em posição de leitura (a escolher).

Encerramento – depois do sinal duplo dos apitos, dispersar com se nada tivesse acontecido.


Serviço:

Organização – Claudio Parreira, Homero Gomes e Mauro Siqueira.

Apoio

O Bule [ www.o-bule.blogspot.com ]
Substantivo Plural [ www.substantivoplural.com.br ]
Zunái [ http://revistazunai.com/blog ]
Página Cultural [ http://paginacultural.com.br ]
Germina [ www.germinaliteratura.com.br ]
Livros e Afins [ http://debolso.livroseafins.com ]
O Mundo Circundante [ http://omundocircundante.blogspot.com ]

Contatos – pelo Twitter: @ClaudioParreira, @sisifodesatento e @maurovss. Pelo Facebook: Claudio Parreira, Homero Gomes, Mauro Siqueira e do blogue O Bule.



MUSA FRAGMENTADA

Por Henrique Marques-Samyn




O desaparecimento precoce de Carlos Pena Filho − poeta recifense falecido aos 31 anos, vítima de um acidente automobilístico − não o impediu de ocupar um lugar de destaque nas boas antologias e revisões críticas da poesia brasileira. Como ocorre no caso dos melhores poetas, se a breve trajetória de Carlos Pena Filho determinou a relativa escassez de sua produção, disso resultou não a sua desqualificação como insuficiente, mas indagações sobre as possíveis conquistas estéticas do poeta, caso lograsse viver mais tempo − algo sobretudo perceptível quando se considera que, ao longo de pouco mais de uma década dedicada à criação literária, de seu estro nasceram os poemas de Nordesterro e os seus justamente celebrados sonetos.

É sobre essa valiosa produção literária que se debruça o escritor e ensaísta Luiz Carlos Monteiro em Musa fragmentada: a poética de Carlos Pena Filho (Editora Universitária da UFPE, 2009). Numa análise atenta e vigorosa, Luiz Carlos Monteiro apresenta uma leitura instigante que evidencia, nos escritos de Carlos Pena, vertentes que dialeticamente se conjugam para a produção de uma obra poética de indiscutível valor: de um lado, o lirismo subjetivista; de outro, a poesia de cunho regionalista, comprometida com as demandas sociais. Considerando as particularidades dessa produção em seu âmbito cultural, historicamente circunscrito, observa o autor: "A multiplicidade diccional e as modulações estéticas e expressionais que caracterizam a poesia de Carlos Pena Filho repartem-se entre o funcionalismo artesanal herdado da geração de 45 e uma tendência visivelmente romântica, por sua vez subdividida entre o lirismo mais emocionado e subjetivo e os poemas de vertente social e popular"; não obstante, como lucidamente pondera Luiz Carlos Monteiro, o que se percebe é "o percurso exigente de uma poesia que sempre buscou, da adolescência à morte prematura, as melhores soluções e definições acompanhadas dos mais convincentes resultados estéticos".

Algo que deve ser mencionado, por seu inegável mérito, é a clareza da argumentação do autor, a ausência de pedantismos e a postura invariavelmente crítica, algo digno de nota principalmente por ter sido concebida a obra como dissertação de mestrado, na Universidade Federal de Pernambuco, sob a orientação de Lourival Holanda − que, certamente não por acaso, foi também o orientador de trabalhos de outros poetas e acadêmicos, como José Rodrigues de Paiva e Carlos Newton Júnior. Note-se também que, não se limitando a reiterar juízos de terceiros, Luiz Carlos Monteiro apresenta suas próprias leituras e interpretações, o que envolve boa dose de risco; parece-nos, a propósito, especialmente discutível a leitura do soneto "Retorno" como "descrição da prática sexual solitária", por conta de imagens como "mãos de sonho se afogando" e "o vento nas palmeiras toca flauta". Não obstante, reconheça-se a coragem de um pesquisador e ensaísta que, em vez de escudar-se atrás de opiniões alheias − prática tão corrente no meio universitário −, ousa falar por si mesmo, assim produzindo um estudo seminal sobre a obra de um dos grandes poetas contemporâneos brasileiros.

(In: http://marques-samyn.blogspot.com/)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXIX

HISTÓRIA E LITERATURA EM OLIVEIRA LIMA

O interesse que a obra de Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) pode ainda despertar, nos nossos dias, situa-se bem mais no âmbito de uma vasta contribuição à historiografia e ao jornalismo de fins do século XIX até as primeiras décadas do século XX, do que no terreno dos assuntos literários propriamente.

Essa constatação não implica na negação da qualidade literária inerente a muitos dos escritos de Oliveira Lima. Ela refere-se ao pouco desenvolvimento, no contexto geral de sua obra, de formas e gêneros esteticamente indissociáveis do texto literário específico. E isto se reflete numa contribuição “menor” do autor em setores como a crítica e o teatro, devendo-se lembrar ainda a inexistência, na sua obra, de textos de poesia e prosa de ficção.

Sua experiência teatral envolve a escrita de apenas uma peça, publicada em 1904, embora ambientada em 1738. Secretário d’El Rei talvez tenha sido feita, em parte, para atender ao “gosto” imperial e de salão de época, predominante mesmo nos inícios da República, com os representantes do Reino no país em franco e continuado desprestígio, tendo como agravantes recentes a perda de espaços públicos e privados e a impossibilidade de exercerem aqueles quaisquer poderes e tomadas de decisão. De outra parte, a peça foi escrita para dar vazão às inclinações teatrais de Oliveira Lima, incrementadas pela formulação de alguns textos e trechos embutidos em textos, que ensejavam teorizações, proposições e levantamentos de problemas gerais ou específicos relativos a essa arte.

No caso da crítica, não se deve desprezar o esforço analítico isolado e erudito do seu segundo livro, Aspectos da literatura colonial brasileira, editado em Berlim, em 1896. Além deste, há outros trabalhos literários que somente seriam publicados e reunidos em livros muitos anos depois, como a Obra seleta (1971), e em especial o volume Estudos literários (1975), ambos organizados por Barbosa Lima Sobrinho, como se verá adiante.

De todo modo, ele se mostrará um grande produtor de textos distribuídos em outras e variadas modalidades culturais, e que terminarão por ser absorvidos pela literatura. São escritos de “publicista” – que era como frequentemente se designava homens públicos que praticavam o jornalismo e as letras –, que incluem artigos de jornal, conferências, cartas, memórias e impressões de viagens. Alguns publicados em plaquetas ou separatas como cuidadosos relatos de numerosas viagens de trabalho, participações em congressos e conferências internacionais empreendidas em países os mais diversos.

Ao esboçar os perfis biográficos de políticos, diplomatas, historiadores e escritores que mais o atacaram ou influenciaram, Oliveira Lima não se esquivava mesmo em fazer aflorar o frio e traiçoeiro rosto de alguns que eram ou viriam a ser seus inimigos.

Perfis que se caracterizavam pelo mais curto e apologético, a exemplo do primeiro texto “Joaquim Nabuco”, escrito bem antes do estremecimento de relações entre ambos, embora já no segundo “Joaquim Nabuco”, publicado em 1910 em francês em La Nouvelle Revue e em vernáculo no “O Estado de São Paulo”, mais extenso e incisivo, ele enfatizasse, de modo extremamente crítico, o cosmopolitismo de um Nabuco europeizado e norte-americanizado. Cosmopolitismo que se processava em detrimento da atenção e da importância que, na sua concepção, deveriam ser dedicadas às coisas do Brasil, como neste parágrafo inicial: “Joaquim Nabuco, falecido há poucos meses em Washington, onde exercia as funções de embaixador do Brasil, era o mais elegante ao mesmo tempo que o menos nacional dos escritores do seu país, onde o cosmopolitismo intelectual é compreensível e necessário, com a condição todavia de oferecer novos recursos ao particularismo literário”.

Acresça-se que o rompimento com o autor de Minha formação teve como causa geradora principal a divergência acerca do pan-americanismo, pelo fato de Oliveira Lima defender a participação de outros países latino-americanos, que não apenas o Brasil, na espécie de “solidariedade internacional” paradoxalmente excludente proposta pelos monroístas dos EUA. Aliás, a este respeito, Antonio Candido, no texto “Os brasileiros e a nossa América”, escreve: “Era o tempo do pan-americanismo, aceito em princípio como a melhor fórmula de convivência e progresso pelos governos e muitos intelectuais da estatura de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Rio Branco (...). Decididamente crítico da política oficial foi Oliveira Lima, cujo livro Pan-americanismo (1907) define o caráter imperialista e os perigos da Doutrina Monroe, opondo-lhe a posição mais livre da Argentina com a Doutrina Drago. (...) Dos intelectuais do começo do século, Oliveira Lima foi provavelmente o que mais se interessou pela análise diferencial das Américas, a saxônica e a latina, e o que melhor aprofundou o problema do relacionamento entre os nossos diversos países, graças ao conhecimento que tinha deles”.

Oliveira Lima escreveu também um texto bipartido como verdadeiro tributo em reconhecimento a Teófilo Braga, um de seus mestres do curso de Letras em Lisboa, e que para ele tinha um “aspecto de enciclopédia viva”, além de ser um dos mentores iniciais de ideias republicanas e positivistas.

Tais perfis se completavam no bem mais extenso e empático, como o “Elogio a Varnhagen”, historiador de sua maior predileção e uma de suas maiores influências, autor de um dos primeiros livros sobre história do Brasil, foi escolhido seu patrono de cadeira na Academia Brasileira de Letras, sendo o “Elogio” o discurso de posse de Oliveira Lima, somente pronunciado em 1903, seis anos após a eleição.

Apesar de servir à República como diplomata, Oliveira Lima abandonou suas inclinações republicanas iniciais, preteridas pela aceitação posterior das ideias monarquistas liberais, para ele, notabilizadas estas no Rei também obeso e escolhido como modelo humanista, a quem dedicou um de seus livros mais representativos, escrito quase que totalmente em Pernambuco, D. João VI no Brasil.

O republicanismo de juventude levou o reforço de dois textos escritos em 1896, Spt Ans de Republique au Brésil, saudando o novo regime brasileiro, não impedindo isto porém que ele fosse acusado de monarquista em 1913, a partir de deturpação de uma entrevista dada ao jornal “O Imparcial”, no Rio de Janeiro.

Ainda sobre o seu distanciamento da literatura, pode-se dizer que se deveu também a nuances e inquietações provocadas pela têmpera concentrada e destemida de seu espírito. Inquietações que o levaram à prática de uma militância combativa, de confronto direto, e que o induziam à diversidade desviante de propósitos mais estritamente literários.

Como fatores e circunstâncias que sempre se ensejaram no seu caminho, ou que sofreram o seu próprio estímulo desembaraçado e desabrido, concorreram em boa medida para esse afastamento da literatura, o alinhamento a uma contemporaneidade participante, embora em alguns momentos equivocada, a exemplo do seu “pacifismo” discutível durante a Primeira Grande Guerra. E foram ainda fatores decisivos neste processo as exigências do jornalismo, da historiografia e da sociologia militantes na transição problemática entre dois regimes e na passagem atribulada entre dois séculos, que determinavam a necessidade de envolvimento em toda uma cadeia de fatos, situações e acontecimentos originados na Revolução Pernambucana de 1817, tendo continuidade no movimento da Independência, emancipação dos escravos, instauração da República e, posteriormente, pela iminência e deflagração da Primeira Guerra Mundial.

De presença marcante e natureza complexa, Oliveira Lima era conhecido pela sua fidelidade e ligação radical às causas e valores que defendia, revelando-se no seu tradicionalismo e nas suas posições monarquistas, homem mais do século XIX que do XX. Por outro lado, poderia empenhar-se em posturas que clamassem por liberdade e justiça social, assumidas com esmero em seus ensaios de sociologia e história, sempre abalizados em constatações e reflexões que contemplavam a análise global e o detalhamento da economia e das transformações políticas e sociais aos níveis local ou internacional.

O tom de sinceridade áspera, a segurança com que preservava seus pontos de vista, a inclinação e o desassombro de polemista sempre a postos, apenas reforçavam uma característica a que ele mesmo se atribuía e que nortearia o sucesso ou influiria também nas suas perdas eventuais ou recorrentes: a sua imparcialidade. Era nela que se apoiava para travar seus embates, no mais das vezes excluindo a vida pessoal de seus desafetos, e sustentando-se sempre na correção, no rigor e na isenção com que tratava de assuntos históricos, diplomáticos e jornalísticos.

Ao descarnar a vida diplomática daquela época, em textos, palestras e atitudes críticas, Oliveira Lima foi granjeando desentendimentos com seus superiores diretos, a exemplo do Barão do Rio Branco, que esteve entre os que, com tenacidade e frieza conspiratória, o prejudicaram na sua carreira. Outro desafeto, que durante a Primeira Guerra Mundial o acusou de “germanofilia”, devido a seu pacifismo, denunciando-o a autoridades inglesas, foi o pernambucano Medeiros e Albuquerque. Oliveira Lima passou a referir-se a este e a outros que o assolavam (Assis Brasil, Fontoura Xavier, Pinheiro Machado) com uma adjetivação demasiadamente pesada para um companheiro de diplomacia – mau caráter, bandido –, e mesmo que não se queira tomar partido após tanto tempo decorrido, tal referência ainda instaura uma certa perplexidade com o seu grau inequívoco de sugestão.

No plano histórico, ele desdobrou-se em assuntos que lhe exigiram minuciosas pesquisas e trabalhosos arranjos metódicos, do que resultou uma série de livros imprescindíveis para se compreender a história do país durante a colonização, o Império e os primeiros anos da República. Em carta a Gilberto Freyre, datada de janeiro de 1922, de Washington, revela como estabeleceu o roteiro cronológico de sua obra histórica, demonstrando cuidado e exatidão ímpares, como no caso particular da época imperial, que tem a seguinte disposição: D. João VI no Brasil (1808-21), O movimento da Independência (1821-22), História diplomática do Brasil: reconhecimento do Império (1823-25) e D. Pedro e D. Miguel: a querela da sucessão (1826-1831). Além destes, há pelo menos dois que ele não cita na carta: O Império brasileiro (1822-89) e D. Miguel no trono (1828-33).

E arremata a carta explicativa dessa parte de sua obra histórica, com um desejo que somente seria satisfeito nove anos após a sua morte: “E também quero em vida publicar 1 volume ou 2 de memórias p.ª gozar do effeito da verdade, sempre exciting, embora nem sempre agradável” (sic).

O volume Memórias (Estas minhas reminiscências...) viria a aparecer em 1937, no Rio de Janeiro, pela José Olympio, sendo publicados também excertos na Obra seleta da Aguilar, em duas partes intituladas Autobiografia.

II

No centenário de nascimento de Oliveira Lima, em 1967, alguns intelectuais brasileiros cogitaram em fazer-lhe as homenagens de praxe, tanto por seus serviços prestados ao país quanto por suas obras, nunca o bastante reconhecidos os primeiros nem divulgadas as segundas.

Isto se traduziria principalmente na publicação de seus trabalhos jornalísticos, com uma quantidade imensa de material inédito existente, somada a uma antologia possível e representativa do material já editado. Este critério foi definido pela impossibilidade de reedição de seus livros anteriormente publicados, o que exigiria custos com os quais os patrocinadores daquelas homenagens – Conselho Federal de Cultura e antigo Instituto Nacional do Livro – talvez não pudessem ou não se dispusessem a arcar.

Seja como for, uma tarefa de tal amplitude ficou a cargo do jornalista e historiador Barbosa Lima Sobrinho, pois envolvia uma pesquisa de largo fôlego e zelo redobrado. Barbosa Lima Sobrinho, por sua vez, convidou para colaborador direto o historiador pernambucano Fernando da Cruz Gouvea, conhecedor profundo da obra e que estava a preparar uma biografia monumental de Oliveira Lima, em três volumes (publicada em 1976, no Recife, pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, sob o título Oliveira Lima: uma biografia).

Os artigos e outros escritos coletados e antologiados por Barbosa Lima Sobrinho e colaboradores, resultaram no livro Obra seleta, no padrão Centenário, da editora Aguilar, publicado em 1971. Neste trabalho, Fernando Gouvea participou na escolha, catalogação e revisão de artigos, notadamente do material publicado no Recife, além de ter elaborado a cronologia da vida e obra de Oliveira Lima.

A Obra seleta inicia-se verdadeiramente com uma extensa introdução crítica e biográfica de Barbosa Lima Sobrinho a respeito do autor de Pernambuco, seu desenvolvimento histórico, acompanhando os seus passos literários e experiências de vida mais relevantes no Recife, em Lisboa, Londres, Berlim, Tóquio, Estocolmo, Caracas, Lima, Paris, Bruxelas, Washington e no restante das cidades e países em que viveu, trabalhou ou apenas visitou.

E embora contendo mais de mil páginas, o livro não foi suficiente para acolher o excedente de inéditos de Oliveira Lima, e nem mesmo as referências bibliográficas de sua colaboração jornalística. Pensou-se, então, na organização de um novo livro, a ser produzido pela Universidade do Recife, o que não aconteceu, mesmo com a intervenção diligente de Mauro Mota. Posteriormente, em 1975, quando a Academia Brasileira de Letras decidiu-se a produzir o livro, conseguiu-se trazer à luz o restante desse material, que levou o título de Estudos literários, com seleção e organização do mesmo Barbosa Lima Sobrinho.

O que há de mais substancial neste livro independente, mas que ao mesmo tempo dá sequência à Obra seleta, são os esboços de figuras do realismo, do naturalismo ou mesmo do parnasianismo brasileiro. Aqui, a intervenção crítica de Oliveira Lima passa a aliar o detalhe biográfico de passagem à análise possível de livros – isoladamente ou no conjunto das obras escolhidas de um determinado autor –, com os recursos interpretativos e com os parcos recursos técnicos e formais de que se dispunha ao tempo.

Assim é que aparecem no bloco “Escritores brasileiros contemporâneos”, José Veríssimo, Sílvio Romero, Olavo Bilac, Rui Barbosa, entre outros. Ele dedica também, em outras páginas, três artigos tanto a Machado de Assis como a Euclides da Cunha, além de fazer a demolição de Maciel Monteiro poeta. De Aluísio de Azevedo, afirma um tanto ironicamente, que passou de “excelente escritor” a “cônsul excelente”.

No caso de Lima Barreto, em dois artigos para “O Estado de São Paulo”, de 1916 e 1917, recebe-o criticamente de espírito aberto, de forma elogiosa, sem distinções de nenhuma espécie, embora o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma fosse ainda um desconhecido.

Lima Barreto, que também era bom polemista, não deixou de, em 1919, tomar satisfações a Oliveira Lima, como registra Barbosa Lima Sobrinho na “Introdução” aos Estudos literários. Esta polêmica procedeu-se rapidamente, tendo como elemento deflagrador a defesa por Oliveira Lima dos EUA em artigo de jornal, quando apontou como imutável a curto prazo o preconceito de cor naquele país, e que tal preconceito pouco poderia influir nos destinos brasileiros. A questão resvalou e estendeu-se à troca de consultas e explicações, embora Lima Barreto, por seu lado, não cedesse às argumentações de Oliveira Lima, continuando a mostrar-se preocupado com o “perigo” que o racismo representava na sua transplantação para o Brasil, facilitada pela imigração constante de norte-americanos.

No entanto, Oliveira Lima não estava empenhado em assumir a defesa de um racismo que já vinha desde pelo menos 1912, segundo seu próprio testemunho, sendo por ele abandonado e execrado. Gilberto Freyre chama a atenção em seu livro Oliveira Lima: Dom Quixote Gordo, como num tempo posterior a 1912 estas mudanças de visada com relação aos negros se deram: “Note-se em Oliveira Lima que a certo desdém pelo mulato, nos seus primeiros trabalhos, sucedeu-se, então, a quase apologia dele, o reconhecimento da possível vantagem para o Brasil de uma política racial diferente da dos Estados Unidos, nas conferências que proferiu em Williamstown, em 1922 (...). Atitude – a de reconhecimento daquela vantagem – a que Oliveira Lima chegou através de hesitações e cautelas”.

Também desse tempo do Centenário é este livro citado de Gilberto Freyre, Dom Quixote Gordo, editado em 1968, pela Imprensa Universitária da UFPE, resultante da convivência de Freyre com Oliveira Lima, principalmente nos EUA, onde aquele era estudante universitário, em anos das primeiras décadas do século XX.

Dom Quixote contém na primeira parte cinco conferências de Freyre, proferidas em dezembro de 1967, e transformadas em ensaios, e na segunda, cerca de sessenta cartas inéditas de Oliveira Lima, precedidas do ensaio “Cartas de Stockolmo e outras cartas” (sic). Este livro, como o próprio Freyre antecipou, privilegia traços biográficos e psicológicos relativos a Oliveira Lima. O autor traz a lume tanto a forma íntima e extremamente pessoal de ser de Oliveira Lima, quanto as suas realizações públicas, ou ainda as muitas frustrações e retaliações de que foi vítima no contato com colegas de diplomacia, de história ou nas relações políticas com conterrâneos. Gilberto Freyre examina, em vários instantes, as consequências de suas atitudes e reflexões de Dom Quixote franca e saudavelmente gordo, provocador e rebelde. O próprio Freyre traçou mais de uma caricatura antológica e expressiva de Oliveira Lima, ressaltando nele, como não poderia deixar de ser, tanto a imensidão de seu corpo pela gordura desproporcionada, como o ar de alguém sempre em atividade, conversando ou reflexivamente concentrado em si mesmo e nos problemas intelectuais e culturais que muito dele exigiam.

Essa modelagem física lhe rendeu ser objeto, da parte de desafetos, de uma quantidade considerável de charges com texto piadístico dirigido e maldoso e alguns poema satíricos de qualidade duvidosa, a exemplo do que escreveu o parnasiano Emílio de Menezes. A isto se somavam mexericos, fofocas, boatos, achaques e maledicências diversas. Surgiram até mesmo relatórios secretos que intentavam retardar-lhe a carreira diplomática – o que terminou por acontecer, com a sua aposentadoria antes do tempo –, partindo de seus inimigos mais na política e na diplomacia, dos simplesmente medíocres e dos invejosos do seu talento inconteste, da sua imensa capacidade de trabalho e de uma consciência intelectual e cultural que ultrapassava o senso gritantemente comum.

A partir de 1920, Oliveira Lima passa a residir em Washington, após ter se estabelecido durante quatro anos no Recife. Embora mesmo com a saúde precária e abalada, continua a exercer intensa atividade intelectual e a viajar bastante. E em 1925 – suprema ironia a distinção que contemplava o diplomata formado em Letras, e não em Direito, como era comum à época – foi convidado a ministrar uma cadeira de Direito Internacional na Universidade Católica de Washington, a mesma na qual está instalada a sua imensa biblioteca particular, a Oliveira Lima Library, cuidadosamente catalogada e arrumada por ele nos seus últimos dias de exilado voluntário e desencantado com o Brasil e com Pernambuco.

(In: Suplemento Cultural da CEPE, ano XIV, jan. 2000.)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXVIII

POLÍTICA

Já faz um bom tempo agora
que em entrevista a um jornal
Pelé disse uma frase famosa:
O brasileiro não sabe votar.

Ainda hoje estamos na dúvida
sobre isso que o Rei afirmou,
pois tem toda uma gente do povo
que não vota por dinheiro ou favor.

E se em toda escolha de nomes
se avalia e se pesa o melhor,
muitas vezes o que acontece
é que o melhor pode ser o pior.

E se em toda disputa por votos
a história assim se repete
misturando eleição com folclore
o vencedor fica sendo a vedete.



UM LIVRO UM TANTO ESCANDALOSO

O livro autobiográfico de Joaquim Nabuco, Minha formação, resultou principalmente das circunstâncias do isolamento político a que ele foi submetido após a queda do Império em 1889, pelo fato de ser um dos mais empenhados e intransigentes defensores do regime monárquico. Nabuco ficou sem espaço político efetivo para a sua atuação parlamentar, no auge de uma carreira que se inicia em 1878, quando é eleito deputado por Pernambuco, imediatamente após a morte do pai, o senador Nabuco de Araújo.

Tal eleição deveu-se a um acordo anterior entre seu pai e o barão de Vila Bela, chefe político de Pernambuco, no qual o senador Nabuco deixou averbada a indicação do filho para deputado pelo partido liberal. Em 1879, Joaquim Nabuco assume a sua cadeira na Câmara, e começa também os trabalhos da campanha abolicionista, que teria como desfecho o 13 de maio de 1888. Durante mais de uma década, essa legislatura é interrompida apenas no período 1881-83, devido a divergências entre ele e o partido liberal. Esta interrupção viria a ter consequências positivas, uma vez que foi no exílio em Londres que Nabuco escreveu O abolicionismo, livro claramente destinado à propaganda e agitação em favor da libertação dos escravos, e guardadas certas diferenças e proporções, correspondente em prosa aos poemas escravistas de Castro Alves. A grande diferença entre ambos é que a visão de Nabuco voltava-se mais para o combate ao que existia de negativo e desabonador na escravidão, no referente a aspectos históricos, sociais e econômicos, enquanto que Castro Alves era portador de uma visão poética romântica e sentimentalista, ainda que libertadora.

Na sua fase de recolhimento, Nabuco escreve, além de Minha formação, a biografia do senador Nabuco de Araújo, Um estadista do Império, e outras obras de reconhecido valor histórico, a exemplo de Balmaceda, sobre a Revolução Chilena. É desse tempo também a sua participação na fundação da Academia Brasileira de Letras, ao lado de Machado de Assis, amigo de toda a vida.

Quando foi publicado em 1900, Minha formação certamente gerou protestos e causou estranheza, como já alertou Gilberto Freyre: “Para o Brasil da época em que apareceu, Minha formação foi um livro um tanto escandaloso, por ter sido, para muitos, cheio de louvor em boca própria. Não faltou quem acusasse o autor de deselegante e narciso”.

A elite bem-pensante brasileira, da qual obviamente Joaquim Nabuco fazia parte, sendo inteiramente desfavorável à prática de confissões públicas, não poderia admitir que uma figura do porte dele passasse a revelar, sem pudores, hipocrisias ou falseamentos, a sua experiência de vida pessoal. E isto, mesmo que o memorialista jamais se excedesse ou avançasse nas declarações de vivências íntimas e particulares, decerto comprometedoras de imagens ou comportamentos de conveniência burguesa. Ou que ele pouco envolvesse nos seus relatos a gente conhecida da época, a não ser numa escala funcional que quase sempre secundarizava os circundantes, predominado aí tanto o esteio de uma vaidade considerável, como o equilíbrio sóbrio de sua educação e origem eminentemente aristocráticas.

O produto histórico-literário final de Minha formação envolve, entre outras coisas, a narração calcada numa prosa de rara fruição e reconhecida beleza poética de sua infância no Engenho Massangana; a educação primeira com o barão de Tautphoeus, as passagens pelo Colégio Pedro II no Rio de Janeiro e pelas faculdades de Direito de São Paulo inicialmente, e depois a conclusão do curso no Recife; o processo de gestação seguida da afirmação de posicionamentos políticos liberais e monárquicos; a descrição de viagens que fez ao exterior em épocas distintas de sua vida, notadamente à Europa e à América; a listagem exaustiva dos autores que mais o influenciaram literária, política e filosoficamente.

Ele desvela ainda a sua transitação mundana e tendências aristocráticas, que passariam a conviver, de modo um tanto contraditório, com os mais altos ideais de emancipação dos escravos. Os seus laços burgueses de liberal fiel ao Imperador e à monarquia parlamentarista foram adquiridos por absoluta influência do pai, e logo após consolidados no conhecimento da Constituição inglesas, de Bagehot, autor hoje obsoleto e que ninguém mais lê, e também no seu desempenho como adido de legação em contato direto – e deslumbrado, como ele mesmo deixa entrever – com a nobreza da Inglaterra.

O memorialismo de Joaquim Nabuco torna-se em certos instantes denso, espectral e obscuro, pelas numerosas teorizações políticas e referências a acontecimentos históricos que empreende, pelas datações e assuntos não raro repetidos, como se ele tivesse feito, e na realidade em certa medida o fez, uma montagem aleatória de vários escritos dispersos e que guardassem pouca relação entre si.

Por outro lado, estas disposições, inovações e inversões, pouco usuais em fins do século XIX, podem ajudar a revelar a sua originalidade na concepção estrutural do livro, que não se inicia propriamente pelos anos da infância, não havendo, portanto, a rigor, uma sequência cronológica e linear definida. O capítulo da infância, “Massangana”, será apresentado como o capítulo 20 de Minha formação.

O que o motivou para esse procedimento, certamente terá sido a oportunidade e a relevância do assunto em detrimento da sequência pura e simples do tempo. De todo modo, mesmo com esta independência do fator temporal, ao fim certos capítulos se entrelaçam e se interpenetram, ganham agilidade narrativa, se lidos com a necessária atenção, embora arrastem-se os capítulos em que ele passa a enumerar as suas influências européias, o que não acontece com os que referem-se aos Estados Unidos.

Em Minha formação, o elemento político alterna-se, em períodos diversos, com as inclinações literárias e artísticas do autor. No capítulo “Crise poética”, o depoimento acerca da sua condição de poeta malogrado, consciente de suas limitações para este ofício, é de uma sinceridade gritante. É sintomático o fato de ele eleger Camões como poeta de sua preferência, estendendo-se esta admiração desde a adolescência à maturidade, e tendo continuidade nos seus tempos de embaixador nos Estados Unidos, com vários discursos pronunciados sobre o poeta.

No capítulo final, “Os últimos dez anos”, não há como deixar de identificar a sua impaciência em prosseguir nesse memorialismo, que o faz estabelecer como ponto de chegada das suas vivências, bem mais públicas que privadas, a idade de cinquenta anos, demarcando assim, de modo bastante sugestivo, o que já se encontrava definido e realizado em sua intensa atuação política. A sua ação libertadora chega até a vitória da causa abolicionista, que permitiu, sem que talvez ele próprio fizesse idéia do que estava por vir, a derrubada do Império e motivou, na mesma sucessão de acontecimentos, o advento da República.

(In: Suplemento Cultural da CEPE, ano XIII, jul. 1999.)


CRÍTICO LITERÁRIO E DE ARTE

Gilberto Freyre assina, além da obra sociológica e antropológica que o consagrou, um tipo de produção literária infrequente e de não tão grande ocorrência em seus escritos, e assim de certo modo pouco conhecida do público leitor, intelectual ou não, que o vem acompanhando.

Essa produção literária – diferentemente de seus livros de reconhecida importância como Casa-grande & senzala (1933), Sobrados e mucambos (1936) e Ordem e progresso (1959) – refere-se à crítica praticada por ele, que se efetiva tanto no plano artístico-cultural quanto no literário propriamente.

Em 1962, através do então jovem crítico Renato Carneiro Campos, tais textos críticos foram reunidos e organizados numa publicação a que se intitulou Vida, forma e cor, editada pela José Olympio, no Rio de Janeiro. A segunda edição de Vida, forma e cor, a cargo da Editora Record, também no Rio de Janeiro, só sairia vinte e cinco anos depois, em 1987, ano da morte de Gilberto Freyre, mas, a julgar pela ficha catalográfica do livro, com este ainda vivo. Nesta nova edição foram suprimidos sete textos, “Algumas notas sobre a pintura no Nordeste do Brasil”, “Nota sobre Augusto dos Anjos”, “Euclydes da Cunha: sua interpretação do Brasil”, “Euclydes da Cunha, tropicalista”, “Introdução do autor ao livro Região e tradição”, “Temas estrangeiros” e “De um Diário de viagem pelas terras europeias de Portugal”, e acrescentado um, “Ciência do homem e museologia: sugestões em torno do Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco”.

Foram mantidos na íntegra os dois prefácios constantes na primeira edição, do autor e de Renato Carneiro Campos, onde no de Freyre há a indicação do percurso de alguns destes ensaios e artigos, apesar das supressões e do acréscimo referidos: “São trabalhos de épocas diversas. O ensaio sobre Augusto dos Anjos foi escrito em inglês e em Oxford; e apareceu numa revista literária de Boston em ano remotíssimo: 1924. As notas sobre pintura no Nordeste são de 1925. O ensaio acerca de Amy Lowell inclui trechos de um trabalho, também escrito em inglês, aparecido num jornal dos Estados Unidos, quando o autor era ainda estudante da Universidade de Baylor. Vários dos outros ensaios são de todo inéditos. Alguns, porém, são retirados de trabalhos já publicados: Aventura e rotina e A propósito de frades, principalmente. A nota sobre Joyce apareceu primeiro em jornal, depois em Artigos de jornal – livro esgotado há anos. São também incluídos o prefácio a outro livro, há anos esgotado, Região e tradição, o prefácio a O romance brasileiro, de Olívio Montenegro, o prefácio aos Ensaios de crítica de poesia, de Otávio Freitas Júnior, o prefácio aos Poemas negros, de Jorge de Lima, o prefácio ao ensaio de Temístocles Linhares sobre o romance moderno.

Um dos primeiros autores brasileiros a atentar para a presença de Freyre como crítico foi o decano da crítica paulistana Antonio Candido, com o pequeno mas sugestivo ensaio inicialmente titulado “Gilberto Freyre crítico literário” (1962), e quando republicado em 1993, com o título mais provocativo “Um crítico fortuito (mas válido)”.

Seja como for, há no ensaio de Candido muita acuidade perceptiva com relação à função crítico-analítica de Freyre, como quando discorre sobre a “ambiguidade criadora” presente na obra do sociólogo pernambucano: “Nela – na obra –, quando saímos à busca do sociólogo deslizamos para o escritor, e quando procuramos o escritor damos com o sociólogo, Se procurarmos especificamente o crítico, acharemos o estudioso que utiliza impuramente a literatura para os fins de sua manipulação sociológica; mas – continua Candido – a impura utilização torna-se de súbito tratamento vivificante, que retorna sobre a literatura a fim de esclarecê-la, porque a sociologia de Gilberto Freyre, sendo estudo rigoroso, é também visão, e a este título a expressão literária se crava no seu cerne, como recurso de elucidação e pesquisa”. A ligação de Gilberto Freyre com os assuntos literários remonta à sua formação escolar no Recife, na década de 1910 e em parte da década de 1920, se bem que sem orientação estilística definida. Desse tempo importam as leituras de autores brasileiros, hispânicos, portugueses, ingleses e franceses, com uma predileção especial dele pela literatura inglesa.

Neste Vida, forma e cor, podem ser conferidos textos de variado teor artístico-literário, e mesmo “científico”: no campo literário mais estrito, aparecem textos sobre poetas, romancistas, críticos literários e outros tipos de prosadores; na reflexão teórica que se reivindica ampla, ensaios sobre pintores pernambucanos de importância comprovada – Lula Cardoso Aires, Cícero Dias, Francisco Brennand; e, finalmente, os ensaios “culturais” sobre estética, sociologia, língua portuguesa, museologia, todos em conjunção estreita com a literatura.

O que poderia às vezes emergir em tais textos como dispersão crítica metodológica, recebe um reforço significativo da quantidade de informações que eles carregam, como por exemplo, num mesmo ensaio o autor ensejar a análise arguta de um romance de Josué Montello em pouquíssimas linhas, ou expor a condição do drama pernambucano a partir das primeiras experiências de um Ariano Suassuna.

A interdisciplinaridade que se faz presente nestes ensaios resulta de um modo desviante de análise e interpretação de Freyre, com a inter-relação constante de disciplinas, gêneros literários ou tendências da arte moderna. Além da erudição que teima em não se mostrar, em muito pela espontaneidade que se verifica no tratamento com autores brasileiros ou estrangeiros, através da extrema simplicidade com que ele apresenta e defende seus pontos de vista, é uma característica sua o biografismo através de perfis que ficaram famosos, como os que escreveu sobre Euclides da Cunha, Augusto dos anjos e Jorge de Lima.

Se Freyre se sai bem melhor quando se dedica a formular seus julgamentos valorativos de vertente impressionista, sob a perspectiva de um criticismo humanista, não há como negar os seus numerosos acertos, achados e descobertas, inclusive quanto a aspectos formais, mais em prosa que em poesia, mesmo em alguns momentos nos quais ele prende-se demasiadamente às suas impressões e empatias particulares.

(In: Suplemento Cultural da CEPE, ano XIV, mar. 2000.)


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXVII

CHÁ DAS CINCO COM O VAMPIRO

Miguel Sanches Neto é o crítico literário de maior visibilidade do Paraná. Atua também na poesia e na ficção, tendo estreado com um romance de forte vetorização autobiográfica Chove sobre minha infância (2000). A infância e a adolescência atribuladas que levou junto à mãe a quem amava e a um padrasto de quem não gostava, em meio ao trabalho árduo no campo e aos sonhos de enveredar pelos caminhos da literatura são enfocados nesse livro. Em A primeira mulher (2008), seu terceiro romance, Sanches vai privilegiar os meandros do romance de enigma policial, as veredas da articulação política, a desilusão do personagem frente ao ensino universitário, a solidão do homem no espaço urbano, a relação conturbada com as mulheres, e, ainda, a relação edipiana, ao mesmo tempo em que propositadamente distanciada, com a mãe.

Sanches Neto chega agora com seu quarto romance, Chá das cinco com o vampiro, marcado pela polêmica em torno de situações e personagens transplantados da ambiência literária curitibana para o corpo da ficção. A narrativa se entretece entre 1982 e 2002, absorvendo duas cidades paranaenses, Peabiru e Curitiba. Cerca de oito anos após a sua versão inicial, passando pela recusa de algumas editoras e pelas confusões e peripécias originadas do conteúdo que vazou e que tornava identificáveis escritores e jornalistas vivos, a Objetiva finalmente aceitou publicá-lo. Duas linhas de leitura podem ser adotadas para o livro: uma que se prende à cota de realidade sugerida pelas figuras literárias e suas circunstâncias, e outra que desvincula rostos vivos ou mortos da necessidade de serem estabelecidos nexos que os identifiquem com maior ou menor facilidade. O autor conviveu com todos eles, em níveis oscilantes entre a amizade e a desavença, a intimidade desfeita e a indiferença total.

A primeira é uma leitura tendenciosa a explorar vaidades literárias, embates surdos, miudezas da convivência gerada entre pares que lutam para ser reconhecidos dentro e fora do circuito provinciano. Mesmo que alguns já estejam alçados à condição de escritores nacionais, o entrevero se estende indefinidamente, até mesmo depois da morte. Neste caso, a vida literária é mais valorizada do que a própria produção textual, o difícil e espinhoso trabalho individual com a palavra é posto em segundo plano pelo flagrante da conversa mafiosa e suspeita ao pé do ouvido.

A segunda leitura não terá como referencial privilegiado os rostos notáveis ou obscuros, ou uma mistura de ambos. Tratará das questões que envolvem o lastro ficcional trazido pelo autor com seu romance. Não se poderá fugir, nesse ponto, ao recorte em que se inclui a parcela autobiográfica. Insurge-se, então, o personagem Beto Nunes, seus pais e sua tia Ester, que terão importância óbvia na construção da narrativa. Ester ocupará frações significativas da vida do personagem central Beto, com um andamento que ofuscará, em muitas passagens e trechos, Geraldo Trentini.

O grande contista, motivador de toda a polêmica gerada pelo livro, não deixará de ser associado a Dalton Trevisan, qualquer que seja a interpretação que se faça. Beto Nunes ou Roberto Nunes Filho, o alter ego e simulacro ficcional de Miguel Sanches Neto, o discípulo e amigo de antes de Trentini, passa a ser visto como o algoz e inimigo de hoje. Assume a condição maldita de ter revelado segredos pessoais do ficcionista silenciados como um código de honra e respeito pelos curitibanos.

É um fato que Trentini aparece sem aparecer, mostra-se e esconde-se cotidianamente no seu ocultamento de boné, casaco e caminhadas, qual esfinge esquiva e inalcançável que não permite a surpresa de fotografias, as entrevistas incômodas e as devassas na sua misteriosa transitação pela cidade e o seu isolamento em casa. O risco óbvio que o personagem Beto Nunes correu foi o de expor detalhes de uma intimidade guardada a sete chaves. E que, pelo lido no texto, desvenda coisas até então desconhecidas por aqueles poucos com quem convive ou conviveu Geraldo Trentini/Dalton Trevisan.

Não se pode negar que Sanches Neto conhece bem o ofício da escrita. Distribui os capítulos setorialmente em anos esparsos de três décadas, lembrando uma técnica bastante utilizada pelo norte-americano John dos Passos. Contudo, não há um enredo rigoroso propriamente, que obedeça incondicionalmente à lógica temporal e espacial de uma história convencional em prosa. A linearidade de situações e acontecimentos é quebrada e confundida o tempo todo, renegando a monotonia descritivística e impulsionando o andamento cronológico de uma duração estática para outra em constante mutação e avanço. A trama caminha com o personagem principal e a recíproca é verdadeira – o personagem vai sendo feito ao largo da colação anuária mesclada das décadas e cidades envolvidas, com os eventos sobrepondo-se, anulando-se e desaparecendo uns nos outros, da adolescência aos inícios da maturidade de Beto. Este personagem redondo se move ao sabor da incerteza que a passagem das horas lhe oferece. E que ele também conquista, nas suas incontáveis leituras e na sua luta para afirmar-se como escritor em Curitiba. Ao modo de um estopim aceso, as suas revelações incendeiam a pólvora das discórdias, idiossincrasias e desentendimentos.

Beto Nunes vive a vida de um estudante pobre do interior no ambiente inicialmente hostil da capital. Começa numa república de estudantes, depois passa a morar sozinho, sempre com a ajuda de uma mesada familiar. Demonstra pouco interesse pelo curso, e ao invés de assistir aulas, dedica-se a ler. As suas primeiras abordagens a Geraldo Trentini vêm dessa época. E é através de Trentini que os espaços de jornal se abrem, com a publicação de um texto sobre o contista. Dividido entre a solidão e o conhecimento de escritores, Beto Nunes vai produzindo seus textos, ficando conhecido e se impondo como crítico e escritor. Quando sua reputação local está consolidada, inicia um rompimento com a maioria daqueles de quem se aproximara. Com o auxílio de Valter Marcondes, empreende julgamentos desabonadores da obra de Geraldo Trentini e de alguns outros componentes da ambiência cultural paranaense.

Família, sexo, solidão, religiosidade e busca de solidez na vida são motes que atravessam o livro. Beto Nunes carrega o esteio da provocação direta, a necessidade iconoclasta de derrubar preconceitos, tabus e valores antigos. Opostamente, impõe-se a vontade acomodatícia subliminar em torno de formas de vencer na vida, encontrada na relativização de sucesso no jornalismo, ao manter uma coluna literária no jornal paranaense O Diário desde os anos de formação. Fornece um retrato impiedoso do pai com seu bafo de pinga e da mãe com seu cheiro diário de doce. As descobertas e práticas sexuais de Beto Nunes são relatadas extensamente ao largo do livro em tons profanos: o incesto com a tia Ester, a violação metafórica do sagrado pela ejaculação em um pão feito por sua própria mãe, a segunda iniciação sexual num cabaré onde seu pai o levara e a relação proibida com a namorada Martha comprometida com outro.

O mundo literário curitibano é visto em suas facetas de avanço ou decadência, restando poucas figuras respeitáveis por suas obras, entre elas o personagem Valter Marcondes, identificado como o crítico literário Wilson Martins e o próprio Geraldo Trentini/Dalton Trevisan. Uílcon Branco/Wilson Bueno, recentemente morto, era o editor do jornal Maria, que na realidade se chamava Nicolau, e estava circunscrito no grupo de literatura neobarroca latino-americana, sendo visto como autor de uma obra preciosista e de valor apenas para a história literária; Valério Chaves/Valêncio Xavier, falecido em 2008, era o vanguardista que aparece também desfavoravelmente em Chá das cinco com o vampiro por escrever uma literatura trash e feita de montagens e colagens. O publicitário Antônio Akel/Jamil Sneg, é um cronista e escritor que detém o respeito, a amizade e a simpatia do personagem-narrador. O colunista político Orlando Capote/Fábio Campana carrega a dupla imagem do jornalista bem-sucedido e do escritor medíocre.

O jovem discípulo e aprendiz de escritor intenta superar o vampiro mestre da ficção curitibana, além de todos aqueles que o incensam e cercam, numa admiração ampla e inesquivável. Beto Nunes não se importa com as gerações a que pertencem, com os livros que publicaram ou com os títulos que ostentam, pois sabe que irão transformar-se em futuros desafetos, uma prática normal na província. O processo de troca, convivência e conhecimento estético entre o autor e o contista curitibano iniciou-se pelo lado considerado sério da escrita, a análise literária do romance A polaquinha, de Dalton Trevisan. Entre outras coisas, as circunvoluções paródicas do erotismo são apresentadas como a maneira que as prostitutas encontram para resistir e enfrentar gigolôs, homens casados e jovens em busca da primeira experiência sexual, através da dissimulação e da aparente fragilidade. Não configura nenhuma coincidência o fato de que um dos textos inaugurais da lavra de Miguel Sanches Neto ter sido justamente O artefato obsceno: visitando a polaquinha (1994), editado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (onde o escritor leciona), sob a forma de um breve ensaio acadêmico.

domingo, 4 de julho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXVI

OS VAQUEIROS


I

Quem viveu na caatinga
e foi criado no mato,

nascido na Cacimbinha
entre Sertânia e o Brabo

pode não ter mãos certeiras
na derrubada do gado,

pode não ter mãos de seda
nem feitas de muitos calos,

mas guarda os que a caneta
lhe trouxe de verso e palavras

escritas na força e peleja
do poeta com seus fantasmas,

de menino que veio cedo
estudar e morar na cidade.

II

Quem foi criado no mato,
no ermo dos tabuleiros

já teve o traquejo do gado
gostando de ver no terreiro

das fazendas ou soltos no pasto
os bichos sobre os lajedos

pulando barrancos e grotas
tangidos pelos vaqueiros.

III

No Sertão há meninos vaqueiros
sem medo correndo prado.

Há os vaqueiros mais velhos
nas pegas de boi pelo mato.

Também os mais jovens vaqueiros
com sua sanha e amor pelo gado.

Há ainda as mulheres vaqueiras
que humanizam essa arte de macho.

E tem ainda os poetas vaqueiros
que improvisam aboio e toada.

IV

Mesmo que certos vaqueiros
atalhem o gado de moto

a tradição não se acaba
por ser ela a mais própria:

Tanger boi a cavalo
junta trabalho e esporte

e vem de tempos antigos
que não se tinha o transporte

perigoso, enviesado, de aço
de quem viaja em duas rodas.

V

O que mais conta ao vaqueiro
é a destreza no trato com os animais.

O que mais vale ao vaqueiro
é o lento preparo de bois e cavalos.

Cavalos para sela e torneio.
Bois para as festas de vaquejada.

VI

Mais de cinquenta léguas
tangem boiada os vaqueiros,

arreios recurvos nas selas
atrás de negócios nas feiras

do Sertão e Agreste, na leva
pastoril das rédeas ligeiras.

Contornam estradas e serras,
previnem o estouro e a perda

de reses só confiadas a eles.
Descansam à sombra das árvores

próximas de pasto e riacho
em terras de cacto e veredas.

Prosseguem ao sol incidente
nos verdes de cinza e distância

quando o gado desfila pungente
mugidos de preguiça inconstante

e desolado o azul se faz lento
aboiar pelo ermo horizonte.